Mandar o pessoal para casa foi rápido. Colocar o home office no contrato, com regra clara sobre custo e jornada, é o que quase ninguém parou para fazer. E é o que evita a maior parte dos problemas.

Quando o trabalho remoto virou rotina, muita empresa fez a coisa óbvia: avisou que a partir de tal dia todo mundo trabalharia de casa, e pronto. Funcionou no susto. O que eu vejo agora, com calma, é a conta dessa pressa chegando. Reembolso de internet, controle de horas, acidente em casa, retorno ao presencial. Tudo isso devia estar combinado por escrito, e na maioria das vezes não está. O teletrabalho tem regras próprias na CLT, e ignorá-las não torna o regime informal, apenas mais arriscado para quem emprega.

Teletrabalho não é "trabalhar de casa de vez em quando"

A lei diferencia. O teletrabalho é a prestação de serviços fora das dependências da empresa, de forma preponderante ou não, usando tecnologia. Comparecer ocasionalmente ao escritório não descaracteriza o regime. E o ponto que muita gente esquece: a adoção do teletrabalho deve constar expressamente do contrato de trabalho ou de aditivo. Não é um detalhe burocrático. É o documento que define quem paga o quê e como a jornada é controlada.

O que precisa estar escrito

O contrato ou aditivo de teletrabalho deve tratar de

A questão dos custos

Essa é a dúvida que mais recebo. Internet, luz, cadeira, computador: de quem é a conta? A CLT não fixa um valor, ela manda que o contrato disponha sobre a responsabilidade pela aquisição, manutenção e fornecimento dos equipamentos e da infraestrutura, e também sobre o reembolso de despesas. Ou seja, a lei joga a decisão para o contrato. Se o contrato é silencioso, abre-se a discussão, e discussão em matéria trabalhista raramente termina barata para a empresa.

O erro mais comum

Pagar uma "ajuda de custo" mensal fixa sem dizer no contrato o que ela cobre. Esse valor solto, sem natureza definida, pode acabar sendo lido como salário disfarçado, com reflexo em férias, décimo terceiro e FGTS. Reembolso de despesa do teletrabalho tem natureza indenizatória, não salarial, mas isso precisa estar dito e justificado.

Jornada: o ponto mais delicado

Aqui mora muita confusão. A CLT prevê que certos trabalhadores em teletrabalho podem ficar fora do controle de jornada, o que afasta a discussão sobre hora extra. Mas isso não é automático, depende da natureza do trabalho e de como ele é organizado. Se a empresa controla horários, exige conexão em janelas fixas, cobra resposta imediata e monitora produção minuto a minuto, fica difícil sustentar que não há controle de jornada. E onde há controle, há hora extra a ser paga.

TemaO que decidir no contrato
CustosQuem paga internet, energia e equipamentos, e a forma de reembolso
JornadaSe há ou não controle de horas, e como se registra quando houver
DisponibilidadeHorário de trabalho, intervalos e limites fora do expediente
Saúde e segurançaInstruções por escrito e o termo de responsabilidade do empregado
RetornoPossibilidade de voltar ao presencial e o prazo de aviso

Como eu costumo encaminhar

Para quem já tem gente trabalhando de casa sem aditivo, a orientação é regularizar agora, em tempo de paz, e não no meio de um processo. Um bom aditivo de teletrabalho não é papelada inútil, é a peça que transforma um arranjo informal em um regime previsível, para os dois lados. O empregado sabe o que pode cobrar, e a empresa sabe até onde vai a sua responsabilidade. Esse alinhamento, na minha experiência, vale muito mais do que parece quando a relação está boa, e vale ainda mais quando ela azeda.

Legislação e referências