Quase todo mundo conhece o teto do Simples Nacional. Pouca gente conhece o sublimite, que é um teto menor, escondido dentro do regime, e que mexe justamente com o imposto estadual. É um dos pontos que mais geram cobrança surpresa no meu dia a dia.
O Simples Nacional tem fama de juntar tudo em uma guia só, e essa é a beleza dele. O que muita gente não sabe é que existe um limite intermediário, o sublimite, que separa o que pode continuar dentro dessa guia única do que precisa ser recolhido por fora. Quando a empresa cresce e passa desse ponto, ela continua no Simples, mas o ICMS e o ISS saem da guia unificada e passam a ser cobrados pelo estado e pelo município, nas regras normais. O empresário não foi expulso do regime, mas perdeu parte da simplicidade que o trouxe até ali.
Teto e sublimite não são a mesma coisa
A primeira confusão a desfazer é essa. O Simples tem um limite máximo de faturamento, acima do qual a empresa sai do regime de vez. E tem o sublimite, um valor menor, voltado especificamente ao recolhimento do ICMS (estadual) e do ISS (municipal). Dá para estar dentro do teto geral e, ao mesmo tempo, acima do sublimite. Nesse intervalo a empresa segue no Simples para os tributos federais, mas trata o imposto estadual e o municipal por fora.
- Teto do Simples: ultrapassá-lo significa sair do regime e migrar para o lucro presumido ou real.
- Sublimite: ultrapassá-lo mantém a empresa no Simples, mas tira o ICMS e o ISS da guia única, que passam a ser recolhidos diretamente ao estado e ao município.
O que muda quando se passa do sublimite
Na prática, a empresa passa a viver em dois mundos. Os tributos federais continuam dentro do Simples, calculados e pagos na guia mensal de sempre. Já o ICMS, e o ISS quando for o caso, passam a ser apurados como em qualquer empresa de regime normal, com obrigações próprias, prazos próprios e, principalmente, contabilidade mais exigente.
| Dentro do sublimite | Acima do sublimite | |
|---|---|---|
| Tributos federais | Na guia única do Simples | Na guia única do Simples |
| ICMS / ISS | Embutidos na mesma guia | Recolhidos por fora, ao estado e ao município |
| Apuração | Simplificada | ICMS pelo regime normal, com créditos e débitos |
| Obrigações acessórias | Reduzidas | Aumentam: escrituração e declarações estaduais |
É aqui que o custo aparece, e nem sempre é só o custo do imposto em si. O recolhimento do ICMS por fora traz a sistemática de débito e crédito, escrituração fiscal mais detalhada e novas obrigações junto ao estado. Para quem estava acostumado com a simplicidade da guia única, a mudança pesa na rotina e no honorário contábil.
Muita empresa cruza o sublimite no meio do ano e só sente o efeito quando o ICMS passa a sair por fora, com valor e calendário próprios. O fluxo de caixa, que estava calibrado para uma guia só, de repente precisa absorver um recolhimento separado e maior. Quando isso não foi previsto, vira aperto. Por isso acompanho de perto a curva de faturamento de quem está nessa faixa, porque o sublimite chega antes do teto.
O sublimite e os estados
Aqui mora um detalhe que confunde até quem já mexe com isso. A lei permite que estados com menor participação no PIB adotem um sublimite menor, o que faria a mesma empresa, com o mesmo faturamento, estar dentro do sublimite em um estado e fora em outro. Na prática, porém, para 2026 nenhum estado fez essa opção: pela Portaria CGSN nº 54/2025, o sublimite é de R$ 3,6 milhões em todos os estados e no Distrito Federal. Como esse valor é definido ano a ano, quem atua em mais de uma unidade da federação, ou pensa em expandir, deve conferir a portaria vigente em vez de presumir.
Há ainda uma mudança a caminho. Com a adequação do Simples à reforma tributária (Resoluções CGSN nº 190 e 191/2026), a partir de 2027 o sublimite de R$ 3,6 milhões passa a valer também para o IBS: ultrapassado o limite, o IBS sai da guia única junto com o ICMS e o ISS.
Como se preparar antes de chegar lá
A passagem do sublimite não precisa ser um trauma. Ela vira problema quando pega o empresário desavisado. Alguns cuidados mudam o jogo.
O que penso sobre isso é simples: o sublimite é uma daquelas regras que não aparecem na conversa de boteco sobre o Simples, mas que decidem o caixa de quem está crescendo. Continuar no Simples não significa continuar na mesma rotina tributária, e essa nuance custa caro quando é descoberta tarde. Se a sua empresa está numa faixa de faturamento que se aproxima desse ponto, vale antecipar a conta. É mais barato planejar a transição do que ser surpreendido por um ICMS que passou a ser cobrado por fora sem aviso.