Terceirizar virou regra no mercado. O que poucos empresários medem é até onde a empresa que contrata continua respondendo pelo trabalhador da prestadora. A resposta surpreende quem achava que estava blindado.

Uma das frases que mais escuto é: "mas esse funcionário nem é meu, é da terceirizada". Entendo a lógica, só que ela não é a do Direito do Trabalho. Terceirização bem feita reduz custo e foca a empresa no que ela faz de melhor. Terceirização mal cuidada transfere o serviço, mas não transfere o risco. E aí a empresa que contratou descobre, num processo, que responde por verbas de alguém que nunca esteve na folha dela.

Primeiro, a terceirização é lícita

Por muito tempo se discutiu se dava para terceirizar a atividade-fim, o núcleo do negócio. Essa discussão ficou para trás. Hoje a lei admite a terceirização de quaisquer atividades, inclusive a principal da empresa. Isso ampliou bastante o que pode ser contratado de fora. Mas atenção: licitude não é sinônimo de ausência de responsabilidade. São coisas diferentes, e é aí que mora a confusão.

A responsabilidade subsidiária, em bom português

O nome assusta, o conceito é simples. Se a prestadora de serviços não paga o que deve ao trabalhador, a empresa que tomou o serviço pode ser chamada a pagar. Subsidiária quer dizer "em segundo lugar": primeiro se cobra da prestadora, e se ela não honra, a tomadora entra na conta. Na prática, quando a terceirizada some, quebra ou simplesmente não paga, a fatura sobra para quem contratou.

TipoQuem respondeQuando aparece
SubsidiáriaTomadora, depois de esgotada a prestadoraTerceirização lícita, em regra
SolidáriaTomadora e prestadora juntas, desde jáFraude, ilicitude ou situações específicas

Repare na diferença. Na subsidiária, a tomadora é uma espécie de fiador. Na solidária, ela está na linha de frente, lado a lado com a prestadora, e o trabalhador pode cobrar de qualquer uma. A diferença entre cair em uma ou em outra depende, em grande parte, de como o contrato foi conduzido.

O que vira o jogo

A responsabilidade da tomadora não é uma fatalidade. Ela cresce ou diminui conforme a fiscalização do contrato. A empresa que apenas assina o contrato e esquece costuma responder integralmente. A que acompanha, exige comprovantes e documenta tudo tem como demonstrar que agiu com cuidado, e isso pesa.

Como eu oriento a fiscalizar

Escolha bem a prestadoraVerifique idoneidade, capacidade econômica e histórico. Contratar a mais barata e frágil é comprar risco com desconto.
Exija a comprovação mês a mêsFolha, recolhimento de FGTS e INSS, pagamento de salários e férias. Sem comprovante, retém ou cobra.
Não confunda os timesSubordinação direta, controle de jornada e gestão pessoal do terceirizado pela tomadora são o atalho para a tese de fraude e responsabilidade solidária.
Documente a fiscalizaçãoGuarde os comprovantes e os registros de cobrança. Na hora do processo, eles são a sua defesa.

O erro que custa caro

O mais perigoso não é a terceirização em si, é a terceirização que esconde uma relação de emprego. Quando a tomadora dá ordens diretas, define horário, fiscaliza o serviço como se fosse seu e o trabalhador está integrado à rotina dela como qualquer empregado, abre-se espaço para reconhecer vínculo direto ou enxergar fraude. Aí já não se fala mais em responsabilidade subsidiária amena, e sim em algo bem mais pesado.

Legislação e referências

Resumo da minha leitura: terceirizar é legítimo e muitas vezes inteligente, mas a responsabilidade não fica toda do outro lado do contrato. Ela acompanha quem contrata, e o tamanho dela é diretamente proporcional ao cuidado na escolha e na fiscalização. Quem trata a terceirização como "problema da prestadora" costuma ser o último a descobrir que o problema é seu.

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