Sem governança, ESG vira discurso. O G é a estrutura que faz o resto acontecer de verdade.

A sigla ESG virou uma daquelas expressões que todo mundo usa e nem sempre com o mesmo sentido. Ela reúne três dimensões pelas quais uma empresa passou a ser avaliada, para além do lucro: o ambiental, o social e a governança. Em inglês, environmental, social e governance. A ordem das letras sugere uma hierarquia, mas na prática eu costumo dizer o contrário: ESG começa pelo G.

Neste texto eu explico por que a governança é o pilar que sustenta os outros dois, e por que, sem ela, o resto tende a virar discurso bonito sem lastro.

O que cada letra significa

Por que o G vem primeiro

Pense numa empresa que anuncia metas ambientais ambiciosas e programas sociais generosos, mas que não tem controles internos, não presta contas com transparência, não tem clareza sobre quem decide o quê e não pune desvios. O que acontece com aquelas metas e programas? Eles ficam à mercê da boa vontade de quem está no comando naquele momento. Mudou a gestão, mudou a prioridade, e tudo se desfaz.

A governança é a estrutura que transforma intenção em prática permanente. É ela que estabelece quem responde pelo quê, como se mede o que foi prometido, como se corrige o que saiu errado e como se garante que o compromisso sobreviva às pessoas. Sem essa estrutura, o ambiental e o social dependem de discurso, e discurso não se cobra.

A ideia central

Governança é o esqueleto do ESG. O social e o ambiental são a musculatura, e importam muito, mas sem esqueleto não param em pé. É o G que faz a empresa cumprir de verdade aquilo que promete nas outras duas dimensões.

A ligação com os princípios da boa governança

Não é coincidência que a governança sustente o ESG. Os próprios princípios da boa governança já apontam para lá. A responsabilidade corporativa, um dos pilares consagrados pelo IBGC, diz que os administradores devem zelar pela perenidade da empresa considerando os impactos que ela gera na sociedade e no meio ambiente. O S e o E já estão, em germe, dentro do G.

Da mesma forma, a transparência e a prestação de contas são o que permite a alguém de fora verificar se o que a empresa diz sobre suas práticas sociais e ambientais corresponde à realidade. Sem transparência, qualquer alegação ESG é apenas uma afirmação que ninguém pode conferir.

O risco do discurso vazio

Existe um fenômeno conhecido em que empresas se apresentam como sustentáveis ou socialmente responsáveis sem que a prática confirme o discurso. Isso corrói a confiança de clientes, investidores e da sociedade, e o próprio mercado tem ficado mais atento a esse descompasso entre o que se diz e o que se faz.

A governança é o antídoto contra esse descompasso. Ela obriga a empresa a ter dados, controles e responsáveis, de modo que a afirmação sobre o social ou o ambiental possa ser sustentada com fatos, e não apenas com boas intenções em relatório.

Por onde uma empresa começa

Se você quer entrar na agenda ESG de forma séria, meu conselho é: comece pela casa arrumada. Antes de anunciar grandes metas, construa a estrutura que vai garantir que elas se cumpram.

Organize a estrutura de decisãoDefina com clareza quem decide, quem executa e quem fiscaliza dentro da empresa.
Implante transparência e controlesRegistre decisões, mantenha contas claras e crie mecanismos de conformidade e de prestação de contas.
Defina responsáveis e métricasPara cada compromisso social ou ambiental, estabeleça quem responde e como o resultado será medido.
Aí sim, avance no S e no ECom a estrutura de pé, os compromissos sociais e ambientais passam a ter lastro e a resistir ao tempo.
Resumo prático
Legislação e referências

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise da realidade concreta da sua empresa por profissionais qualificados.

Base e referências (IBGC)

Este conteúdo tem base no arcabouço de boas práticas do IBGC. Principais referências:

Conteúdo de caráter informativo. Cada caso tem a sua particularidade. Quer falar sobre o seu? →