Transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade. Entenda o que cada um significa na prática.

Quando alguém me pergunta o que é governança corporativa, costumo responder com uma imagem simples: é o conjunto de regras, práticas e freios que fazem uma empresa ser dirigida no interesse dela mesma, e não apenas no interesse de quem está com a caneta na mão naquele momento. Governança é o que garante que as decisões sejam tomadas de forma clara, justa e responsável, mesmo quando ninguém está olhando.

No Brasil, a referência mais consagrada nesse tema é o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, publicado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, o IBGC. Esse código se apoia em quatro princípios que funcionam como pilares. Neste texto eu quero explicar cada um deles sem juridiquês, mostrando o que significam no dia a dia de uma empresa real.

Transparência

Transparência não é apenas divulgar o que a lei obriga. É o desejo genuíno de disponibilizar às partes interessadas as informações que sejam relevantes para elas, e não somente aquelas que interessam à administração. Uma boa gestão parte do princípio de que informação clara constrói confiança, e confiança é o que sustenta relações duradouras com sócios, bancos, clientes e colaboradores.

Na prática, transparência aparece em coisas concretas: demonstrações financeiras organizadas, decisões registradas em ata, contratos formalizados, comunicação honesta sobre riscos e resultados. Uma empresa que esconde números dos próprios sócios não tem um problema de contabilidade, tem um problema de governança.

Equidade

Equidade é o tratamento justo e isonômico de todos os sócios e das demais partes interessadas. Significa que quem tem a mesma posição deve ser tratado da mesma maneira, sem privilégios ocultos e sem que um grupo use o poder que tem para prejudicar outro.

Esse princípio ganha enorme importância em empresas com sócios majoritários e minoritários. O sócio que controla a companhia tem legitimidade para dirigi-la, mas não tem licença para tratar o minoritário como estorvo. Equidade é a diferença entre uma sociedade em que todos se sentem respeitados e uma sociedade que vive em conflito latente.

Prestação de contas

A prestação de contas, também chamada de accountability, é o dever que os agentes de governança têm de responder pelos seus atos. Quem administra recursos que não são só seus precisa poder explicar o que fez, por que fez e com quais resultados, assumindo integralmente as consequências de suas ações e omissões.

Repare que prestação de contas não é sinônimo de burocracia. É postura. O administrador que age sabendo que um dia terá de justificar cada decisão tende a decidir melhor, com mais cuidado e menos improviso.

Uma distinção que importa

Prestar contas não é apenas mostrar números no fim do ano. É assumir a responsabilidade por aquilo que se decidiu, inclusive pelos erros. Governança madura é a que trata o erro com honestidade, e não a que finge que ele nunca aconteceu.

Responsabilidade corporativa

O quarto princípio é a responsabilidade corporativa. Ele diz que os agentes de governança devem zelar pela viabilidade econômica da empresa no longo prazo, considerando os impactos que suas atividades geram na sociedade e no meio ambiente. Aqui a empresa deixa de olhar apenas para o próximo trimestre e passa a se pensar como parte de um sistema maior.

É desse princípio que nasce boa parte da agenda que hoje chamamos de ESG. Mas a ideia é anterior à sigla: uma empresa bem governada entende que não existe lucro sustentável construído sobre danos a quem está ao redor.

Por que isso interessa a você

Talvez você esteja pensando que esses princípios são coisa de grande companhia de capital aberto. Não são. Eles se aplicam, na medida certa, a uma empresa familiar, a uma sociedade de dois amigos, a uma clínica, a uma instituição de longa permanência. Governança não é um luxo de gigante, é uma escolha de quem quer que o negócio sobreviva a seus fundadores e às crises.

Resumo prático
Legislação e referências

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise do caso concreto por um advogado de sua confiança.

Base e referências (IBGC)

Este conteúdo tem base no arcabouço de boas práticas do IBGC. Principais referências:

A definição dos quatro princípios acompanha o Código das Melhores Práticas do IBGC.

Conteúdo de caráter informativo. Cada caso tem a sua particularidade. Quer falar sobre o seu? →